Relatos da Menarca

Meu relato (por Juliana Vergueiro)

Com muito respeito aos mistérios da natureza feminina, o sangue.

Meu sangue, meu espelho de obsidiana…

Há 3 anos comecei a me conhecer melhor parando de jogar no lixo meu precioso sangue menstrual. Lamentavelmente, desde minha primeira menstruação, aos 12 anos, eu cultivava o hábito de lançá-lo no aterro sanitário, para fluir com a maioria dos dejetos da humanidade… Hábito que não foi exatamente cultivado por uma escolha minha, pois nunca vislumbrara outra opção. O que soube, através de todas as mulheres que me rodeavam, era que a sequência óbvia e única ao recebimento da menstruação era o modess, o absorvente íntimo descartável… O que era possível era se esbaldar no mar de opções do supermercado: grande, pequeno, fininho, superfininho, de plástico, de “algodão”, com abas, sem abas…todas aquelas embalagens! Só de lembrar do toque daqueles pacotinhos, cheio de odores artificiais, me deu um embruho no estômago.

Sempre detestei usar o modess, e como grande maioria das mulheres, comecei mal minha relação com minha menstruação. Herdei também das mulheres da família e das amigas, o tabu do sangue, o nojo do contato, o medo do “vazamento” proibido e o aborrecimento ritual dos dias de menstruação. Ritual, sim, pois também alguma coisa me confirmava que tudo isso era só uma forma de seguir o script, uma forma de estar integrada na imensa categoria “ser mulher”. Todas as mulheres reclamavam. Eu era só uma menina, querendo ser mulher. Minha forma de assumir, para mim e para todos, que eu também era mulher, era reclamar também. Desejei muito a menstruação, desejei o modess, desejei as dores, desejei tomar o buscopan, desejei acordar encharcada em sangue… é verdade, hoje reconheço isso. Uma maneira um pouco torta de ter sua iniciação, mas a forma encontrada por mais uma das tantas solitárias meninas vivendo sua menarca. É um momento solitário, sim. Ao menos nessa era em que estamos vivendo… Muitas mulheres juntas, vivendo solitariamente.

Quando chegou a minha vez, meu primeiro sangue, na verdade bem espesso e marrom, e não fluido em vermelho como a imagem que tinha do sangue, segui perfeitamente o script, e vivenciei tudo aquilo que desejei. Apesar desse desejo inconsciente de ter problemas com minha menstruação, para dessa forma torta, me reconhecer como mulher, ela nunca me deu muitos problemas. Nunca sofri com “vazamentos”, e tive cólicas muito fortes acho que umas 3 ou 4 vezes na vida. Quando tentei recorrer ao buscopan para aliviar as dores da cólica, fiquei tão mal, tão, mal! Caiu minha pressão, não conseguia me cuidar sozinha, caída e totalmente branca, achei que ia morrer… percebi nesse dia que era muito melhor ficar com as cólicas que achar um jeito de fingir que elas não estavam lá.

E nesse momento entrei um contato com algo que nunca tinham me dito, mas que era meu, que estava dentro de mim, mas não dava valor por não conhecer nenhuma manifestação parecida de alguém que eu considerasse um exemplo: ficava com minhas dores, quando elas vinham, que não era sempre. Vi que se aprendesse a sentir essas dores, estaria mais próxima de mim, não ficaria dependente de soluções externas e também aprenderia a me fortalecer.

Um dia comentei com uma prima mais velha como era um saco a menstruação, esperando a habitual solidariedade feminina no assunto. Ela me desconcertou, porque disse que gostava da menstruação, que a fazia sentir-se mulher. Não dei muita bola, mas isso nunca saiu da minha cabeça. Era uma outra opinião… parece que todas as mulheres compartilhavam apenas as dificuldades relativas ao sangrar, e nunca ninguém havia comentado qualquer coisa de valor sobre a menstruação.

Treze anos depois da minha menarca, aprendendo muito por caminhos retos e por caminhos tortos, descobri através de uma amiga que existia uma coisa chamada coletor menstrual. Nada parecido com o modess, uma espécie de copinho de silicone de uso interno e que é possível esvaziar de 8 em 8 horas. Senti que meus desejos haviam sido realizados! O modess me aborrecia tanto – pelo cheiro, pelo incômodo do uso, pelo fato de assar e fazer coçar a gente – que me lembro de vários momentos em que desejei fortemente uma alternativa. Corri para comprar, e na época só era possível importar. Comprei pela internet, o nome dele é Mooncup. Demorou um pouco pra chegar, e assim que ele chegou, esperei como nunca minha menstruação. Estava muito ansiosa, muito curiosa, e quando pude experimentar, ganhei de mim mesma um grande presente…

meu sangue

livre de plásticos, alvejantes, colas e géis, livre do cheiro horrível que existe APENAS no contato com esses materiais.

Ganhei de volta o meu próprio sangue. Descobri que eu não menstruava tanto quanto parecia. Naqueles modess cheios de gel absorvente, parecia que eu derramava muito sangue. O peso daquilo quando estava “cheio” é que me dava essa impressão. Mas não é verdade. Como uma folha de papel de cozinha quando recebe um pingo d’água, o modess fica cheio e pesado com a menor quantidade de sangue. E em contato com os produtos que ele têm, assim que o sangue cai no absorvente, começa a oxidar. Em palavras mais diretas, a apodrecer. O cheio é horrível depois de algumas horas. E essa é a experiência que a maioria de nós tem com seu sangue: algo realmente chato, nojento e fedido, sendo nosso dever jogá-lo fora o mais rápido possível.

Com o mooncup (coletor menstrual), e hoje com os absorventes de pano que fabrico com uma amiga [veja as fotos], tenho hoje uma relação de muito, muito respeito e devoção ao sangue que sai de mim todo mês. Não achem que foi imediato. Há 3 anos, quando comecei a usar o mooncup, eu também jogava meu sangue na privada. Só depois fui percebendo que tinha alguma coisa estranha nisso. Meu sangue ficava todo maravilhosamente contido naquele copinho, e quando eu o retirava de mim, podia perceber-lhe a textura, a cor, a quantidade, o cheiro saudável (um cheiro próprio, indescritível por ser muito sutil)… Este mesmo sangue então não era sujo, “velho” e desprezível, mas um sangue honrado, um sangue sagrado, uma parte divina de mim entregue à terra… Passei a diluí-lo na água e jogá-lo na terra, onde sentia muito maior ressonância. Descobri que o sangue menstrual é dávida, e não castigo, e que nele está reunido o que havia de mais precioso em uma mulher: todos os nutrientes abençoados e lindamente filtrados e refinados para nutrir uma vida nova dentro do útero. Uma vida que não chegou. O útero é um ninho que se prepara todo mês. Sem a chegada da pequena jóia, o ninho se desfaz em menstruação. Como poderia jogá-lo no esgoto? O lugar mais apropriado é a Terra, que irá recebê-lo com todo amor. Nutrir a terra, as plantas, com a benção sagrada da nutrição feminina.

E o que acontece nesse momento é um despertar. Receber de uma outra forma sua menstruação é receber a chave para o segredo profundo e maravilhoso escondido dentro de cada mulher. Um segredo de tanta dádiva e tanta generosidade…

Minha alegria foi tanta ao descobrir essas coisas que divulguei para muitas amigas. Realizei uma lista de interessadas com a Mooncup e acabei fazendo um contato amigável com a empresa inglesa, que me sugeriu ser uma distribuidora do produto aqui no Brasil, e é assim já há dois anos. Antes de vendedora, sou usuária gratíssima e ativista pela auto-libertação da mulher.

Conheci nesse caminho uma mulher maravilhosa, que já entregava seu sangue à Terra há anos usando absorventes de pano. Comecei a costurá-los com ela e hoje fornecemos para muitas mulheres!

Quis compartilhar aqui minha experiência para incentivar outras mulheres a descobrir algo profundo e tão rico, capaz de mudar muito a sua vida, e que já habita em você…

Aqui estão os linques para o coletor menstrual e para os absorventes de pano, para quem se interessar.

http://www.mooncup.co.uk/languages/pt/como-utilizar-o-mooncup.html —-> Mooncup®, coletor menstrual

Veja fotos aqui

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Relato de Fabiana Cesquim – São Caetano do Sul

Minha mãe morreu quando eu e minha irmã éramos ainda crianças. Sem um referêncial feminino em casa, com a falta de orientação na escola, e com a mais completa ausência de diálogo sobre puberdade, sexualidade, transformações enfim da fase de menina para mulher, crescemos eu e minha irmã, que por volta dos 12 anos menstruou. Na época poucas pessoas tinham telefone em casa, e meu pai, ansioso por dar a notícia à família, foi a casa da visinha que tinha telefone (e dois filhos da nossa idade!) e em plena sala fez o anúncio. Isso constrangeu demais a nós, e os desastres daquela noite estavam só começando. Achando que devia conversar sobre a questão, meu pai disse algumas palavras que se resumiram basicamente em, “isso fede”, “você tem de redobrar os cuidados com a higiene” e “agora seu corpo está pronto para engravidar!”. Meu Deus, pensavámos, porque isso acontece, sem isso estávamos muito bem antes… outros incovenientes se sucederam, como colocar o absorvente com a parte da cola na pele, ter a calça manchada na escola, os meninos observarem e fazerem piada sobre o “volume” extra que notaram quando o absorvente saiu do lugar… O resultado de tudo isso é que eu e minha irmã odiamos tanto ter mestruado que de alguma maneira bloqueamos a menstruação, desenvolvendo Síndrome do Ovário Policístico, cujo um dos sintomas é a amenorreia. Bem, hoje, após muitas tentativas de “cura” (o que me ajudou muito foi ler na internet sobre a Tenda da Lua do Xamanismo) menstruamos, tivemos filho e somos gratas por menstruar todo mês. Agora então com o Mooncup essa experiência está muito mais em sintonia a natureza do ato, com uma relação mais saudável com o meu corpo, com os mistérios de ser mulher, com mais respeito ao meio ambiente.

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